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O vento arrasta a cinza


Em 2004, quando foi escrito, este poema tinha as palavras «o pólen» no lugar das palavras «a cinza». Fica a homenagem aos que combateram e sofreram com os incêndios de 15 e 16 de Outubro de 2017, em particular no Pinhal de Leiria.

Num ligeiro remoinho 
o vento arrasta a cinza 
das flores do verde pino. 
 
E traz consigo a memória 
do velho rei trovador: 
– Ai flores do verde pino. 
 
Quem suspira mansamente 
pelos pinhais do litoral? 
Será o vento ou o mar? 
 
Ou serão ainda os ecos 
duma cantiga de amigo? 
– Ai flores do verde pino. 
 
Perdida na bruma densa
do tempo sem remissão 
soa a mágoa do poeta: 
 
– Ainda ouvis minha voz? 
Ainda vos lembrais de mim 
ó flores do verde pino? 
 
Mas só responde o murmúrio 
do vento que arrasta a cinza 
das flores do verde pino.

quando eu morrer não tragais flores


FOTO DE CARLOS A. SILVA

quando eu morrer
não tragais flores
que flor cortada
logo fenece
e morto por morto
basta no esquife
o cadáver que arrefece

não tragais sequer
lamento e pranto
que a morte
– porque certa –
não vale o espanto
nem a mágoa da perda
que o peito descerra

trazei histórias e canções
e poemas vibrantes
com as memórias felizes
dos dias de antes
perenes como as flores
de pé na terra

havia naquela manhã de abril


 

[A Salgueiro Maia, nos 40 anos do 25 de Abril]

havia naquela manhã de abril
um odor a cravos
perfumando a cidade

eram brancos, vermelhos, matizados
da cor dos sonhos oprimidos
sem idade

havia no ar primaveril
um som de vozes
bailando à toa no eco das ruas

eram risos, cantos, brados festivos
arrojados do mais fundo
das almas nuas

havia no radioso céu de anil
uma alegria pura
sem conta nem medida

e uma maré de gente laboriosa
tomava por fim nas mãos
o rumo da sua própria vida

Carlos Alberto Silva
25-04-2014

Elogio da Greve Mansa

A greve é um direito constitucional
Desde que não seja no meu quintal
E não belisque a conveniência geral

Não afecte a produção das farinhas
Nem ponha em causa a criação de galinhas
Nem traumatize as pobres criancinhas

O melhor seria ouvir os poderes instalados
E fazê-la no dia e hora mais adequados
Para não haver prejudicados

Talvez ao domingo depois do sermão
No feriado da Imaculada Conceição
Ou dia de São Nunca (que é santo pagão)

Nos restantes dias a greve já cansa
Agitando a louca bandeira da esperança
Que a melhor das greves é a greve mansa