{"id":45,"date":"2015-10-08T16:35:00","date_gmt":"2015-10-08T16:35:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost\/wordpress\/2014\/04\/25\/uma-viagem-no-tempo\/"},"modified":"2024-08-29T20:43:06","modified_gmt":"2024-08-29T20:43:06","slug":"uma-viagem-no-tempo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/amoranegra.pt\/?p=45","title":{"rendered":"Uma viagem no tempo (evocando o Portugal de antes do 25 de Abril)"},"content":{"rendered":"\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"706\" src=\"https:\/\/amoranegra.pt\/wp-content\/uploads\/2015\/10\/escola-primaria-1024x706.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-4817\" srcset=\"https:\/\/amoranegra.pt\/wp-content\/uploads\/2015\/10\/escola-primaria-1024x706.jpg 1024w, https:\/\/amoranegra.pt\/wp-content\/uploads\/2015\/10\/escola-primaria-300x207.jpg 300w, https:\/\/amoranegra.pt\/wp-content\/uploads\/2015\/10\/escola-primaria-768x530.jpg 768w, https:\/\/amoranegra.pt\/wp-content\/uploads\/2015\/10\/escola-primaria-435x300.jpg 435w, https:\/\/amoranegra.pt\/wp-content\/uploads\/2015\/10\/escola-primaria.jpg 1092w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Nas aldeias mais remotas, havia frequentemente apenas uma professora, que lecionava todos os anos de escolaridade; rapazes e raparigas conviviam na mesma sala, mas n\u00e3o no recreio.<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p><span class=\"fbPhotosPhotoCaption\"><span class=\"hasCaption\">Convido-vos a fazer comigo uma viagem no tempo, usando a vossa imagina\u00e7\u00e3o.<br>Imaginem que amanh\u00e3, quando chegarem \u00e0 escola, as raparigas v\u00e3o para um lado e os rapazes para o outro. Metade da escola ser\u00e1 para turmas s\u00f3 de rapazes e a outra metade para turmas s\u00f3 de raparigas. O recreio ficar\u00e1 tamb\u00e9m d<span class=\"text_exposed_show\">ividido em dois. Uma parte, a maior, ficar\u00e1 para os rapazes, a outra para as raparigas. Nem rapazes nem raparigas se poder\u00e3o aproximar do muro que os separa ou ser\u00e3o castigados severamente.<\/span><\/span><span class=\"hasCaption\"><\/span><\/span><\/p>\n\n\n\n<!--more-->\n\n\n\n<p><span id=\"fbPhotoSnowliftCaption\" class=\"fbPhotosPhotoCaption\"><span class=\"hasCaption\"><span class=\"text_exposed_show\">Todos ter\u00e3o de vir vestidos com uma bata branca, impecavelmente limpa, sobre a roupa que usam. No entanto, as meninas n\u00e3o poder\u00e3o vestir cal\u00e7as. Ter\u00e3o de vir de saia ou vestido at\u00e9 ao joelho e cal\u00e7ar meias at\u00e9 ao meio da perna. Os rapazes ter\u00e3o de usar o cabelo curto.<br>Dentro da sala, os alunos mais espertos sentar-se-\u00e3o \u00e0 frente. Os que tiverem dificuldades de aprendizagem ficar\u00e3o ao fundo.<br>A primeira coisa a fazer quando entrarem na sala ser\u00e1 rezar um Pai-Nosso ou uma Ave-maria. Em certos dias, cantar-se-\u00e1 o Hino Nacional, de p\u00e9 e em sentido.<br>O professor ter\u00e1, para al\u00e9m dos seus utens\u00edlios habituais, mais dois: uma longa cana-da-\u00edndia (ou uma vara de madeira) e uma r\u00e9gua em forma de \u00abchupa-chupa\u00bb, com cinco furos na parte redonda. Sabem para que servem? Para vos castigar.<br>Sempre que falarem sem autoriza\u00e7\u00e3o, ou n\u00e3o responderem acertadamente a uma pergunta, levar\u00e3o uma canada na cabe\u00e7a. Sempre que fizerem algo mal feito, um determinado n\u00famero de reguadas. Por exemplo, num ditado, levar\u00e3o uma reguada por cada erro de ortografia. Se o erro for na acentua\u00e7\u00e3o ou na pontua\u00e7\u00e3o, ser\u00e1 uma reguada para cada tr\u00eas falhas.<br>Ter\u00e3o de saber dizer de cor os nomes de todos os rios, montanhas, distritos, capitais de distrito, caminhos-de-ferro, n\u00e3o s\u00f3 de Portugal Continental, mas tamb\u00e9m de Angola, Mo\u00e7ambique, Guin\u00e9 e restantes col\u00f3nias. Ah! E a tabuada, do 1 ao 10, os pronomes, os adv\u00e9rbios, os graus dos adjectivos, os reis das v\u00e1rias dinastias e respectivos cognomes, as conjuga\u00e7\u00f5es verbais e outras coisas que tais.<br>Se algu\u00e9m tiver mau aproveitamento nas provas (fichas e testes), o professor colocar-lhe-\u00e1 umas orelhas de burro na cabe\u00e7a e passe\u00e1-lo-\u00e1 de sala em sala, para que se riam dele. Quem quer que passe por isso ser\u00e1, para sempre, o \u00abburro\u00bb.<br>Sempre que um adulto entrar na sala, dever\u00e3o levantar-se e cumpriment\u00e1-lo. Ali\u00e1s, todos os adultos dever\u00e3o ser tratados por \u00absenhor\u00bb ou \u00absenhora\u00bb e ter\u00e3o de obedecer a qualquer ordem sua. Se n\u00e3o, l\u00e1 vai reguada \u2026ou pior.<br>Quando acabarem a Escola Prim\u00e1ria, poder\u00e1 acontecer uma de v\u00e1rias coisas. Se forem filhos de pais ricos, ir\u00e3o para o Liceu e da\u00ed para a Universidade. Se os vossos pais forem \u00abremediados\u00bb, poder\u00e3o ingressar na Escola Comercial e Industrial da localidade mais pr\u00f3xima. Se os vossos pais forem mesmo pobres, ir\u00e3o aprender uma profiss\u00e3o numa oficina ou numa f\u00e1brica ou trabalhar no campo.<br>Aos 20 anos, ter\u00e3o de ir para a tropa, fazer a recruta. Alguns meses depois, mandar-vos-\u00e3o num barco ou num avi\u00e3o para \u00c1frica, combater \u00abem defesa das Prov\u00edncias Ultramarinas\u00bb. Poder\u00e3o voltar ou n\u00e3o. Se voltarem, poder\u00e3o trazer o corpo inteiro ou n\u00e3o. A cabe\u00e7a de certeza que n\u00e3o vir\u00e1 a funcionar bem. Ter\u00e3o pesadelos todas as noites, durante muitos anos.<br>Mas o pior pesadelo ser\u00e1 o vosso dia-a-dia\u2026<br>Se forem na rua com a vossa namorada e vos der a vontade de a beijar, se o fizerem em p\u00fablico, ser\u00e3o ambos presos e maltratados.<br>Se falarem mal do governo, se possu\u00edrem livros proibidos, se escreverem coisas \u00abinconvenientes\u00bb no jornal da terra, se pertencerem a um partido, a pol\u00edcia vir\u00e1 de noite a vossa casa e prender-vos-\u00e1. As coisas terr\u00edveis que vos far\u00e3o na pris\u00e3o, nem sequer as vou nomear\u2026<br>Esta viagem no tempo j\u00e1 est\u00e1 a parecer um \u00abfilme de terror\u00bb, n\u00e3o acham? Vamos, ent\u00e3o, ficar por aqui.<br>Quero agora dizer-vos que este \u00abfilme de terror\u00bb vivi-o eu at\u00e9 aos 15 anos.<br>E viveu-o muita gente deste pa\u00eds. Muitos foram presos e torturados, alguns morreram at\u00e9 na pris\u00e3o. Muitos n\u00e3o voltaram da guerra, outros voltaram estropiados ou amalucados. Muitos tiveram de emigrar para fugir \u00e0 guerra ou \u00e0 pobreza\u2026<br>Acrescento apenas que, num belo dia de Abril de h\u00e1 40 anos atr\u00e1s, um punhado de militares portugueses, fartos de uma guerra in\u00fatil, decidiram que n\u00e3o queriam mais um pa\u00eds assim. Marcharam sobre Lisboa com os seus carros de combate e derrubaram o governo de ent\u00e3o. O povo, quando percebeu o que se passava, veio para a rua, apoiar esses militares corajosos. E h\u00e1 uma coisa espantosa nas fotografias desses acontecimentos: nas armas dos soldados, h\u00e1 cravos; nas caras das pessoas, brilham os mais luminosos sorrisos.<br><em><strong>Carlos Alberto Silva<br>22-04-2014<br><\/strong><\/em><\/span><\/span><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Convido-vos a fazer comigo uma viagem no tempo, usando a vossa imagina\u00e7\u00e3o.Imaginem que amanh\u00e3, quando chegarem \u00e0 escola, as raparigas v\u00e3o para um lado e os rapazes para o outro. 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