A princesa de We-Hali

Jovens timorenses em trajes tradicionais.
Em tempos passados, já muito distantes, partiram para We-Hali alguns príncipes de Samoro, a fim de aí contratarem a princesa que deveria casar com o príncipe desta terra.
Quando chegaram a We-Hali, já ali encontraram gente de vários reinos, a solicitar também a real donzela.
Os de We-Hali, manhosos, enfeitaram muito bem mulheres de nobre estirpe e apresentaram-nas aos emissários, para que entre todas escolhessem aquela que mais prendesse os seus olhares.
Os de Samoro, antes que penetrassem no palácio real, em conversa amiga com as serviçais do régulo, tentaram saber qual, de entre elas, será a verdadeira princesa.
Estas responderam que nenhuma daquelas era a verdadeira princesa, mas sim uma outra que estava na cozinha, vestida de criada.
Assim, quando os de Samoro entraram no palácio para escolher sua rainha, não se decidiram por nenhuma das que os de We-Hali apresentaram aos seu olhares, mas indicaram aquela criada que estava a trabalhar na cozinha.

Os de We-Hali, vendo isto, opuseram-se, não concordaram.
Os de Samoro, cientes de que os We-Hali não satisfariam os seus desejos, combinaram levar a princesa, e fizeram-lho saber secretamente por meio de suas aias.
Esta, informada de tão arrojada decisão, concordou jubilosa.
Então, à meia noite em ponto, quanto todos dormiam, os de Samoro, com suas artes mágicas, tomaram a princesa e fugiram logo naquela noite, caminhando sempre, até que atingiram as fronteiras de We-Hali, antes de romper o dia.
Deste modo, chegaram à margem duma ribeira chamada We-Nunuk.
De repente, a ribeira encheu, e apareceram à flor da água inúmeros crocodilos a defender a sua rainha.
Então esta, sendo para eles a “Filha do Sol” e, por isso, senhora de todos os elementos, falou-lhes amigavelmente e fez com eles o seguinte pacto: deviam transportá-la, a ela e aos homens de Samoro, para a outra margem da ribeira. Feito isto, os de Samoro e todos os seus descendentes, de geração em geração, jamais lhes fariam mal, nem comeriam nunca a sua carne.
Os crocodilos aceitaram a proposta da princesa e puseram-na do lado de lá da ribeira, a ela e a todos quantos vinham no seu séquito.
E depois que passou toda a gente de Samoro, as águas da ribeira começaram a subir e apareceram ainda mais crocodilos à superfície, a barrar a passagem aos de We-Hali, que vinham em perseguição dos de Samoro, a fim de se apoderarem novamente da sua rainha.
Já na outra margem, os de Samoro deram largas ao seu regozijo pela vitória alcançada, e ainda hoje continuam a cantar:
“Gabavam-se de que We-Nunuk levava muita água,
Mas os de Samoro passaram-na a pé enxuto!”
Devido a esta lenda, os de Samoro, ainda hoje, têm em grande veneração os crocodilos, não lhe fazem mal e chamam-lhe avô.
Quando, entram em qualquer represa das ribeiras onde possa haver crocodilos, põem -se a dizer:
“Avô, não faças mal, nem mordas os teus netos!…”

De Textos em tetum da Literatura Oral Timorense, recolhida por Artur Basílio de Sá