A guerra que nunca acaba

Segundo a fábula, um ser divino mostrou-se visível à Rainha Loro-Sae e entregou-lhe a arma (azagaia). Esta arma é hoje considerada pelos descendentes como fortaleza de Timor-Lorosae.
O ser divino que entregou esta arma às gentes da tribo de Laga é natural da montanha de Matebian. O divino filho de Mau Watu era Salamau, o deus da aldeia Suruluto. Mau-Dawa-Buifli, a pessoa que extrai o vinho em Buigira, tinha uma filha que se chamava Limau, a Rainha Loro-sae. Os descendentes da tribo Laga, suco Nunira, estavam aptos a extrair o vinho da palmeira (sopi) e cozinhavam a aguardente (arak), segundo o processo tradicional. Porquê? Porque a especialidade dos antepassados era a produção de vinho extraído da palmeira. Vamos ouvir esta história!
Todas as tardes, o divino Salamau se transformava completamente em morcego e procurava o vinho de Mau-Dawa-Buini, pai de Limau. Ele bebia todo o vinho dele que estava em cima da palmeira. Um dia, quando veio ver o seu vinho, o pai de Limau reparou que aquele vinho tinha desaparecido. Então, ele decidiu vigiar, a ver quem tinha bebido o vinho. Por fim, numa tarde, quando ele veio velar a sua árvore, ele viu um morcego em cima daquela árvore, bebendo o vinho. Ele ficou pasmado!

– Estou a perceber! Era por causa deste morcego que não tinha mais vinho!
Depois, o pai de Limau tentou agarrar o animal. Afinal, ele não estava ciente de que este animal era um ser humano, que era o Salamau, e que tinha relação com a filha dele.
Finalmente, ele agarrou o morcego… mas, de súbito, o morcego voltou novamente a transformar-se num ser humano.
Impressionado, Mau-Dawa-Buini perguntou-lhe:
– Que desejas?!
Com muita delicadeza, Salamau respondeu:
– Eu quero casar com a sua filha Limau.
O pai replicou:
– É isto que desejas?! Vem comigo!
A seguir, o homem e o pai voltaram para a casa donde Limau nunca tinha saído. O pai decidiu logo que Salamau e a filha casassem.
Depois do casamento, o casal jovem viveu a sós e trabalhou para obter o que precisava. Eles viviam em Lawadae (nome duma planta que existe nas proximidades de Laga). Salamau era um bom marido e empenhava-se em tarefas radicalmente pesadas para que a sua família vivesse em prosperidade. Ele tinha que trabalhar duramente durante o tempo do cultivo. A sua fazenda era em Hai-Gia, com 1000 hectares de dimensão.
Salamau fez todo o trabalho em 12 horas. Mas não fez o trabalho sozinho…
Ele ordenou a todos os pelos do seu corpo para se transformarem em seres humanos e trabalharem para ele. Durante esse tempo, ele ficava desnudado, a vê-los trabalhar… Por isso é que ele dizia à sua esposa:
– Se você quer ir e ver a nossa plantação, tem que chamar pelo cão e gritar antes, para que eu saiba que você vem-se aproximando. Se você não fizer isto, havemos de nos separar.
A esposa obedeceu ao seu marido. Assim, quando ela se aproximava, o marido podia fazer desaparecer o génio e voltar a ser a sua própria pessoa.
No decorrer do tempo, a esposa fartou-se de chamar o cão ou gritar. Certo dia, ela foi à fazenda sem avisar. Chegou lá e viu o seu marido de corpo nu e muitas pessoas trabalhando na fazenda. O marido dela ficou surpreendido ao vê-la e não teve tempo de remodelar a sua pessoa, porque alguns dos seus pelos estavam longe, do outro lado da plantação. Em seguida, ele disse à esposa:
– Querida, você transgrediu as minhas ordens, viu-me nesta condição e fez-me sentir envergonhado. Temos de nos separar!
Ele lançou-lhe a praga:
-Você não ouviu aquilo que eu disse. A partir deste dia, terá que tentar rigorosamente aguentar o calor do sol, sairá o seu suor, as suas mãos engrossarão e a sua cintura estará forçosamente emprenhada, se você quiser receber alimentos desta terra. Eu estarei no firmamento. A partir de agora, você há-de acreditar que, quando eu for visível no ponto leste do horizonte, você terá que plantar milho. Quando eu aparecer no ponto oeste, plantará arroz. Por isso, quando as sete estrelas forem vistas na parte oriental, a população deste sítio começa a cultivar milho, e quando estas estrelas forem vistas na parte ocidental, eles plantam arroz…
Em seguida. Salamau queimou fezes de porco, colocou-se dentro do fumo e foi para o céu. Quando o divino estava já a meio do caminho do céu, a sua esposa, espantada, olhou para cima e disse:
– Olhe, meu marido, você vai-se embora, mas diga-me como se chama!
Por último, a azagaia de Salamau caiu da mão para baixo. Ele disse:
– Esta azagaia será substituto para o meu nome, a seguir você dar-me-á o nome de Oro Mausalah (arma azagaia)…
Por isso, a Guerra em Timor Loro-Sae não tem fim, porque a azagaia tem sido como património para a gente daquele lugar. Até agora, a Guerra existe e sempre existirá. O lugar chamado Hai-Gia é respeitado pelos habitantes daquela região e especialmente pelos descendentes de Mausala. Quando eles celebram o aniversário, eles têm que abater porcos, cabritos e ovelhas que sejam virgens. Algumas pessoas ainda acreditam que Salamau é um ser divino que lhes deu fortuna no cultivo das várzeas. Naqueles lugares, todas as gerações acreditam que Salamau está materializado nas sete estrelas (Raha) do universo infinito,

 

Recolhida pelo IRFED, 2001/2002
in Lendas de Timor (Baucau) e outras histórias