A lenda da abóbora

Antigamente, na escosta do Monte de Uru Bai, no reino de Venilale, na aldeia de Lia Bala, vivia um velho que gostava muito de cultivar a horta de abóboras. Naquele tempo, as abóboras davam frutos e eram só de tamanhos redondos. Ele preparava a sua horta durante um mês, no sopé daquele monte. Quando a chuva caía na terra, ele ia logo para a terra e levava consigo as sementes das abóboras para semear. Semeava durante uns dias. Depois de umas semanas, o velho ia outra vez para a sua horta e via as sementes nascerem e crescerem com muita abundância.
Todas as manhãs saía de sua casa e ia fazer mondas. Tratava muito bem da sua horta. Um mês depois, as sementes de abóbora começaram a dar fruto em grande quantidade. Ele cuidava, tratava, até que as abóboras ficavam maduras, sem o velho mexer nelas. Todos os dias, levava consigo alimentos para o meio-dia e um bambuzinho para mater a sede.
Um certo dia, esqueceu-se de levar água. Era meio-dia e já tinha muita sede. Então, o velho resolveu ir buscar água a uma nascente que ficava muito longe da sua horta. Depois de ir buscar a água, regressou novamente. Quando chegou ao meio do caminho, ouviu um barulho de músicas, na direcção da sua horta. O velho ficou muito espantado, ao ouvir esse barulho. Continuou andando, em direcção à sua horta. E o barulho de músicas ia aumentando.
Ele pensava para si mesmo, que era um grande monte de gente que estava na sua horta. O barulho vinha mesmo de dentro da horta. Ele procurava um jeito para saber quem eram essas pessoas. Sentou-se no chão, e ia andando, sentado. Quando chegou perto do cerco, ele espreitou para dentro da horta e viu logo que as frutas das abóboras é que estavam a dançar, muito animadas. Algumas tocavam viola, e outras dançavam.
O velho murmurava:
– Que curiosas, são estas abóboras!
Cheio de rancor, subiu o cerco e saltou para dentro da horta. As abóboras ficaram cheias de medo, ao verem o seu dono. E cada uma delas correu, à procura do seu lugar. O velho ficou aborrecido, porque viu que as abóboras estavam todas em desordem. Então, ele resolveu ir para cada lado da sua horta, para ver o que acontecia.
Primeiro foi em direcção ao norte e encontrou uma abóbora que ia a descer, escorregou e ficou perto do cerco, com um tamanho redondo e comprido.
Quando voltou em direcção ao sul, encontrou outra fruta que ia a correr sem atenção, atropelou uma pedra e ficou com um tamanho liso e redondo.
Em terceiro lugar, voltou-se em direcção ao ocidente, e viu também uma fruta que ia a correr em direcção à sua sombra e nem via o seu caminho, atropelou um tronco e ficou com um tamanho encorcundado.
Em quarto e último lugar, em direcção ao oriente, encontrava-se outra fruta que ia a correr em direcção à luz do sol, e não atropelava a luz do sol, e ficava escondida no capim, e ainda tinha o tamanho da sua origem.
Depois de tudo isto, o velho voltou para o centro da sua horta, ficou calado, e meditou, pensando em Deus, dizendo:
– Deus, Pai, sobre todas as coisas. As sementes de abóbora que me deram, eu cuidei e tratei delas muito bem, mas agora, desobedeceram-me. Portanto, agora e para sempre, elas irão espalhar-se por todo o território, onde queiram, e as sementes que virão delas hão-de viver e crescer, segundo o seu
tamanho, com o tamanho de cada uma.
É por causa disto que, actualmente, semeamos as sementes das abóboras, quando dão frutos são de tamanhos redondo-comprido, liso-redondo, encorcundado e algumas ainda têm o tamanho de origem, redondo. Acaba assim, a lenda da abóbora.
N.B. A obediência é a sentinela da vida!

in «Lendas e outras histórias de Timor (Baucau)», recolha de Maria Cristiana Casimiro
(LENDA CONTADA POR JACINTO CORREIA GUTERRES, VENILALE, 2002/03)

1 comentário a “A lenda da abóbora

Os comentários estão fechados.