Arquivo da Categoria: Imagens faladas

A Primavera da liberdade

FOTO: Carlos Fernandes

O Inverno vem e vai, umas vezes mais ameno, outras vezes inclemente. As árvores fazem o que podem para resistir aos seus humores. Suspendem o ciclo vegetativo e despojam-se das folhas que as vestem. Açoitadas pelo vento, não têm outro remédio se não vergar-se. E por vezes quebram…

Assim o povo, perante um governo despótico. Durante um tempo, também ele se despoja, também ele se verga, também ele quebra. Mas tal como as árvores, também ele sonha com a Primavera. E há um dia em que, de flores em punho (ou bordões, ou espingardas…), faz com que a liberdade aconteça.
2 de Março de 2013
(O dia em que o povo, mais uma vez, saiu à rua)

Morrer de pé


FOTO: Carlos Fernandes

Embora submetido ao peso dos símbolos; embora flagelado pela agrura das intempéries; embora sujeito à deriva do tempo; embora curvado e seco; embora esquecido e só… só o golpe final lhe roubará a verticalidade das suas origens, quando era verde entre o verde, árvore entre as árvores.
Sonha com a brisa
Acariciando o bosque
– Cantando baixinho.
Foi árvore, agora é mastro.
Como elas, morre de pé.

A aranha e a sua teia

FOTO: Carlos Fernandes

A aranha aplica na construção da sua teia um maravilhoso plano de engenharia, que se encontra inscrito no próprio código genético. E este é resultado do exercício que, durante milhões de anos, fizeram todas as aranhas antes dela. Podemos deixar-nos fascinar pela perfeição de uma teia de aranha, admirar a sua regularidade, enaltecer a sua exactidão matemática. No entanto, cumprida a sua função, logo a aranha se lança na tecedura de uma nova. Porque o fito dela é apanhar a mosca e não a teia em si. E isso não a impede, naquilo que faz, de fazer o melhor que sabe.

Perlada de orvalho –
Brilha ao sol da manhã
A teia de aranha.

Breve sinal de uma luta
Que na morte se faz vida.

Dezembro

FOTO: Carlos Fernandes

Dezembro chega e com ele a certeza de um Inverno duro. Não o desmentem os fiapos das nuvens nem o sol baixo que se acoita atrás das casas. Para além do frio e da crueza dos dias curtos, a vida não será fácil para quem tem de fincar os dedos na terra por arar. Nunca o foi, mas agora sê-lo-á menos que nunca, face aos desmandos dos senhores de mãos macias e discurso fácil. Por isso, a urgência de manter viva a teimosa luz da esperança.
Altivas e ledas –
Passam ligeiras as nuvens
Namorando o vento.
Por detrás do casario
Vai minguando a luz do sol.

O brilho da lua

FOTO: Carlos Fernandes

Hierática e bela, revela-se inteira apenas de mês a mês, atenuando a treva com a sua luz fantasmática – por vezes, nem isso, que as nuvens gostam de jogar com ela o jogo das escondidas. No rosto redondo, sempre a mesma expressão serena, o mesmo sorriso enigmático. Que mistérios guardará na sua face oculta? Que segredos? Que sortilégios usará para enfeitiçar os apaixonados, os ébrios, os gatos e os poetas? Só ela o saberá, a lua.

Noite de luar –
Uma poalha de luz
Quebra a escuridão.

Um casal de namorados
Arrulha, a mão na mão.

A José Régio

FOTO: Carlos Fernandes

Quantas vezes o trilho dito certo, palmilhado anos e anos como tal, conduz a um beco, a um deserto, a uma charneca em noite de vendaval?
Quantas vezes o horizonte rasgado, miragem de um futuro por cumprir, se torna num estreito acanhado? Que pode o caminhante decidir?
Audaz como no cântico de Régio, mesmo sem saber por nem para onde, rasgar novo caminho entre as giestas, até ouvir que o eco lhe responde.
Ignorantes e nus –
Chegamos a este mundo
Sem mapa nem guia.
São os nossos próprios pés
Que vão traçando o caminho.

Prece

FOTO: Carlos Fernandes

Que se franqueiem todas as portas, para que por elas passe a doce brisa da liberdade. Que se desimpeçam todas as escadas, para que possamos emergir das trevas de nós próprios. Que se abram bem os olhos, os ouvidos e as narinas, para que nos deleitemos com a verde e sussurrante fragrância da Primavera. Que se descerre, enfim, o coração, para que saibamos usufruir plenamente do privilégio de estar vivos.
Dá-me a tua mão –
Iremos a par e passo
Pela vida, sem pressas.
Para iluminar o caminho,
Basta apenas um sorriso.

Pouca terra!

FOTO: Carlos Fernandes

Pouca terra, pouca terra, pouca terra… ecoa ao longe o monótono lamento do comboio. Lá vai ele, gemebundo, subindo e descendo montes, atravessando planícies, cruzando pontes sobre rios e ribeiras. O seu labor torna permanente na paisagem um duplo rasto, que ele percorre em contínuo vai e vem, ora para lá, ora para cá.
Leva no ventre gente de todas as condições à procura de novos destinos. Uns para perto, outros para longe. Uns voltarão, outros talvez não.
Lá vai o comboio –
Traço negro na paisagem
Ofegante e lesto
Como um cavalo de ferro
Em constante movimento

A geometria das casas

FOTO: Carlos Fernandes

Sonhadas a régua e esquadro, subjugadas ao rigor do fio-de-prumo, erguem-se as casas, verticais e geométricas, amuralhando as ruas da cidade. Imóveis e hirtas, nem dão pelo passar do tempo que lhes corrói a caliça. Mas é dentro delas que o fogo amorna as noites de inverno. É dentro delas que a sombra melhor refresca os dias de estio. É dentro delas que as paixões se temperam e os corpos se afeiçoam. É dentro delas que a vida se renova.

Ergue-se a cidade
na geometria das casas –
sonho de arquitecto.

Espreitando pela janela,
uma avó embala o neto.

A canção do rio

FOTO: Carlos Fernandes

Os longos pilares de cimento e aço atravessam o vale, aprumados como as colunas de uma catedral. São quase belos, não fora o facto de sustentarem as vigas de um progresso questionável. Símbolos da arrogância humana, fazem tábua rasa da geologia, alinhando o que é naturalmente desalinhado. Mas é falsa a sua imagem de solidez eterna: em menos de um século, irão ceder e desmoronar-se. E o que é um século para o paciente rio que canta lá em baixo? Foi ele quem cavou o vale…
Rumoreja o rio
ao ritmo das estações
– com a voz das águas.
Vai abraçar-se com o mar,
lavando penas e mágoas.