Arquivo da Categoria: Imagens faladas

Uma espada chamada Maria


FOTO: Carlos Fernandes

Desafiando o poente, o vulto de um herói de outras eras. A sua espada – à qual este deu o nome de Maria – aponta o céu. «Forte Nuno» lhe chamou Camões, declarando «ditosa» a Pátria «que tal filho teve». Mas tudo nos diz que, na defesa da lusa independência, ao lado dos guerreiros, também o povo simples deu o sangue e a vida.

Cai a noite. Um vento de temporal reproduz os ecos de Aljubarrota. Ao longe, entre o tilintar das armas, uma voz entoa:
– Às armas! Às armas! Pelo povo de Portugal. Contra os Andeiros, marchar, marchar.
Ecoam no vento
O estrépito das armas
E gritos remotos
– É a bravura dos avós
Nos campos de Aljubarrota.

O deus dos ladrões

FOTO: Carlos Fernandes
Os gregos chamavam-lhe Hermes, os romanos, Mercúrio. Mensageiro dos deuses, tinha nos pés umas pequenas asas, que lhe permitiam descolar-se à velocidade da luz. Atribuíram-lhe mais funções que a qualquer outra divindade da mitologia, mas é conhecido sobretudo como o deus da eloquência, dos comerciantes e dos ladrões. Três atributos muito em voga nos tempos que correm, a lembrar certas personalidades que decidiram não deixar pedra sobre pedra, neste recanto de gente pacífica. Embora de moral duvidosa, Hermes conseguiu sempre o apoio dos Poderosos. E os que por cá lhe seguem o exemplo, parece que também.
É o deus dos ladrões –
Traz na mão o caduceu
E um chapéu alado.
Voa, sem sair do sítio,
Sob o pó acumulado.

O futuro ausente

FOTO: Carlos Fernandes
Bates à porta. Pegas no batente e desferes três sonoras pancadas, que ressoam no sossego da casa. Ficas à espera e nada. Voltas a bater, desta vez com mais força. Logo que o eco das pancadas se esbate, lá dentro nada bule. Esperas um pouco mais. Não está ninguém, concluis. Preparas-te para virar costas, mas um som vago chama-te a atenção. Afinal, está alguém, pensas tu. Voltas a bater, agora gentilmente, não vá esse alguém assustar-se. Silêncio. Desistes e vais embora.
Bateste à porta do futuro. Não sabes que, neste país adiado, o futuro está ausente.
Ao bater da aldraba
Só o silêncio responde.
No velho solar
Nem o vento se demora.
Porque ali já ninguém mora.

Um país de marinheiros

FOTO: Carlos Fernandes

Diz a tradição que somos um país de marinheiros; que os nossos antepassados derrotaram o terrível Adamastor e deram novos mundos ao mundo. Um poeta maior cantou tais feitos, em oitavas decassilábicas, e fez dessa epopeia o poema matricial da nação. No entanto, denuncia também os que, em solo pátrio, se deixam tomar pela cobiça e o afundam «na rudeza / Duma austera, apagada e vil tristeza». Pelo que (vi)vemos hoje, é urgente reler Camões. E acordar para o mar…

Tal como as gaivotas –
Quando perdem terra à vista
Voltam a aportar
Somos um povo marinheiro

Que virou costas ao mar

No rasto do pincel


FOTO: Carlos Fernandes

No rasto do pincel, tomam forma ruas serpenteantes, casas alinhadas, planícies verdejantes, prados floridos, montes nevados, falésias abruptas, ondas encrespadas e outros fragmentos pictóricos da realidade. Ora mais figurativos, ora mais abstractos, filtrados pela emoção do pintor, são os breves registos de um tempo que se não repete.
Rebrilhando ao sol da tarde, ficam então expostos ao olhar dos passantes, tentando despertar o interesse de um eventual comprador. E a troco de algumas notas, mais do que o seu labor, o artista cede um pouco das suas próprias memórias.
Manchas coloridas
Sob a poeira do tempo
– Memórias felizes.
Resplandece a luz do sol
Na tela do pensamento.

Fábula


FOTO: Carlos Fernandes
Por detrás do enorme portão gradeado de uma casa senhorial, um feroz cãozarrão tomava-se de razões perante um minúsculo ratinho:
– Mas quem és tu, insignificante criatura, para te atreveres a pisar a minha sombra? Saberás, por acaso, com quem estás a lidar? Olha para o meu porte, para a imponência dos meus músculos, para os meus possantes colmilhos, sinais inequívocos da minha força, da minha bravura e da minha nobreza. Fica sabendo que sou macho premiado nos mais concorridos certames caninos, desejado e farejado por tudo quanto é cadela de raça…
Sem perder a compostura, embora sentindo o coraçãozito agitado como folha em dia de vendaval, o ratinho ia recuando disfarçadamente em direcção ao portão. Vendo que o atroz canídeo cerrava os olhos, embriagado pelos arroubos do auto-elogio, logo se escapuliu por entre o gradeamento. E, já do outro lado, fez ouvir a sua vozinha:
– De que te servem agora a tua nobreza, a tua bravura e a tua força, prisioneiro que és dessas grades, ó cão? Posso ser pequeno e insignificante, indigno até de pisar a tua sombra, mas ao menos sou livre! Poderás tu dizer o mesmo?
O cãozarrão baixou as orelhas e meteu o rabo entre as pernas. O ratinho lá foi à sua vida.

A lenta erosão do tempo

FOTO: Carlos Fernandes
Ferro e pedra, arrancados ao seio da terra, são os materiais preferidos dos construtores de cidades. Moldados pelo fogo, com eles se armam as silhuetas das vertiginosas estruturas que recortam o horizonte. Robustos e poderosos, são imunes aos ímpetos do vento e da chuva em dia de temporal e resistem firmes aos próprios abalos telúricos. Na soberba dos homens, são presumidamente eternos. Mas o tempo é um bicho paciente que tudo devora. Ferro e pedra, como a efémera carne de servos e reis, tudo tornará um dia à poeira primordial.
Irmãos da ferrugem
Que rói o duro metal
– os fungos na pedra.
Agentes e testemunhas
Da lenta erosão do tempo.

Num feixe


FOTO: Carlos Fernandes

Secam as canas ao sol. Atadas em feixes, parecem ganhar uma robustez e uma resistência que individualmente nunca tiveram. Serão talvez reutilizadas como suporte dos vegetais da horta, para uma cerca temporária ou para cobrir um alpendre. Sendo-o ou não, se verá que essas qualidades são apenas ilusórias. Acabada a sua vulgar conveniência, irão arder num lume breve, no final da estação.
Assim parece quererem fazer à humilde gente alguns mal disfarçados admiradores do pérfido «fascio», que tão grande tragédia trouxe à Humanidade.
Soluça o regato –
O verde canavial
Foi cortado cerce.

Já não baila a fresca brisa
De braço dado com as canas.

Ao tacho!


FOTO: Carlos Fernandes

Sobre a parede em ruínas, um velho tacho, a lembrar os tempos que correm. Entre o significado algo acintoso de «emprego ou ocupação que dá regalias e bom salário» e a sua acepção mais comum de «utensílio para cozinhar ao lume», o tacho estará sempre ligado ao acesso aos recursos indispensáveis à sobrevivência humana. Sabendo nós que esses recursos são limitados, nunca esta imagem foi tão pertinente como em momentos de crise – que alguns chamam «de oportunidade». É que, para que uma minoria continue a acumular escandalosamente, a maioria acabará por ficar com quase nada. E haverá muitos que terão cada vez menos para pôr no tacho para que uns poucos tenham o tacho cada vez mais cheio.
Velho tacho roto –
Brilhando ao sol matinal,
Na casa em ruínas.
Refulge por entre as ervas
A memória de uma vida.

Vai formosa e não segura


FOTO: Carlos Fernandes

Continua enlameada a vereda por onde se passeia a Primavera, vestida simplesmente com a grinalda das primeiras flores. Ainda com demasiada frequência, as nuvens entornam uma chuva espessa e gélida, fora de tempo. E o vento, esse demente, ajuda à folia, despedaçando com fúria os tenros rebentos.
Vai formosa e não segura – como diria Luís Vaz -, face à toleima de um Inverno caprichoso, mas como não é de brigas, a donzela aguardará apenas que lhe passe o mau humor.
Tarda a Primavera –
A chuva que alaga a terra
Corre sem parar.
Traindo o Equinócio,
O Inverno teima em ficar.