Arquivo da Categoria: Contos timorenses

A nascente sagrada Uai-Dada, em Bercoli

Há milhares de anos, os nossos avós contaram que, de dentro dessa nascente, saíram muitos búfalos.
Perto dessa nascente, também havia uma várzea, que tinha o mesmo nome de Uai-Dada.
Nesta várzea, quando estava para chegar o neli, os búfalos sempre o estragavam, então, o dono da várzea, que era o Liurai de Uai Tu Nau, mandou o seu povo fazer vigilância, para apanhar os búfalos que vinham de noite, estragar o neli.
Numa certa noite, os vigilantes logo apanharam os búfalos que vinham de dentro da nascente. Os vigilantes estavam preparados e deixaram os búfalos entrar dentro da várzea, e daí os vigilantes foram atrás deles, com azagaias, os búfalos voltaram a entrar dentro da nascente, mas dois foram apanhados pelas azagaias e correram para fora. Daí, esses búfalos foram mortos, os vigilantes, em vez de os cortarem, deixaram para o dia seguinte.
Já era noite alta, e os vigilantes cobriram os búfalos com folhas de palmeira e, no dia seguinte, ao voltar para cortar os búfalos mortos, estes estavam transformados em pedras grandes.
Por causa disto é que a água saía com pouca força, da nascente, e os de antigamente diziam que antes saia muita água dali.
As famílias que moravam perto desta nascente, foram buscar água, mas tinham de o fazer segundo a tradição, chamar o cão «qin-hon» para o dono ou lulik poder desviar o vigilante, para ele não dar tiros.
No tempo de batar sarimiak, os chefes da tradição matam frangos, para ver os seus fígados, que podem interpretar se a acção do tempo é boa ou má.

Conto do João Jogador

Uma mulher e um homem tiveram um filho. Quando ele nasceu puseram-lhe o nome de João. Desde o tempo em que era pequeno até crescer, só queria jogar cartas.
Deixou então a casa dos pais para viajar, procurando quem quisesse jogar cartas com ele. Todos lhe chamavam João Jogador. Depois de ter ganho a todos dentro do seu reino, foi de reino em reino, sempre a jogar cartas. No jogo de cartas, ninguém lhe ganhava. Vivia como um rei.
Era muito vaidoso por causa disto. Um dia foi para terra estrangeira. Lá falou pomposamente de si mesmo, “Deixem saber que se um homem aparecer aqui para jogar eu não lhe viro as costas, deixem saber!” Assim que ele acabou de dizer estas palavras, apareceu à sua frente um gigante. O gigante disse-lhe “Amigo! Estás a desafiar-me? Eu aceito.”João disse-lhe “É o que desejo realmente. Continuar a ler

Os «vampiros» de Ataúro

Na pequena ilha de Ataúro, a 17 kms da costa, em frente a Dili (capital da ilha), existe a crença popular nos Lé-Káli e Mimítu, criaturas com cabeça de serpente suportada por um esquálido corpo humano.
Seus dentes compridos, garras e mãos enormes assustavam adultos e crianças, conforme nos conta o antropólogo português Jorge Barros Duarte em seu livro “Ritos e mitos Ataúros” (Lisboa, 1984). Os habitantes da montanhosa ilhota acreditam que os Lé-Káli e Mimítu podem aparecer sob a forma de um morcego para roubar-lhes a alma…

in Timor: mitos e lendas de um povo livre

O gigante e a lua

Noutros tempos habitava em Timor um gigante chamado Beileira, duma estatura tão desmedida, que, pondo-se de pé, facilmente com a mão chegava às estrelas.
Uma vez, um filho do gigante, estando ao colo do pai, estendeu o braço e com a mão sujou a lua com banana assada e cinza.
Este gigante teve um fim horrivelmente trágico. Casara. Ainda a noite não tinha envolvido inteiramente a Terra no seu negro manto, já o gigante, cansado, recolhera ao tálamo nupcial, não tardando a adormecer profundamente. A noiva recolhera mais tarde. Já no leito, reparara esta que entre os dois se interpusera uma jibóia gigante, de grossura e comprimento assombrosos.
Rapidamente agarra na catana de guerra do gigante e a golpes repetidos a ataca. Só depois e já sem remédio, veio a reconhecer que o gigante se esvaía em sangue, morrendo juntamente com a jibóia.
Na planície de Quirás, no posto de Fatu-Berlio, região de Manufai, foi enterrado o gigante Beileira, mas para caber nas covas que lhe abriram, tiveram de o dividir em sete partes.
in «Mitos e Contos do Timor Português», de Correia de Campos. Agência-Geral do Ultramar

O crocodilo que se fez Timor

Disseram, e eu ouvi, que desde há muito séculos um crocodilo vivia num pântano. Este crocodilo sonhava crescer, ter mesmo um tamanho descomunal. Mas a verdade é que ele não era só pequeno, como vivia num espaço apertado. Tudo era estreito à sua volta, somente o sonho dele era grande.
O pântano é de ver, é o pior lugar para morar. Água parada, pouco funda, suja, abafada por margens esquisitas e indefinidas. Ainda por cima, sem abundância de alimentos ao gosto de um crocodilo.
Por tudo isto, o crocodilo estava farto de viver naquele pântano, mas não tinha outra morada.
Ao longo do tempo, milhares de anos, parece, o que ia valendo ao crocodilo era o ele ser grande conversador. Enquanto estava acordado, conversava, conversava… É que este crocodilo fazia perguntas a si mesmo e, depois, como se ele próprio fosse outro, respondia-se-lhe.
De qualquer maneira, conversar assim, isoladamente, durante séculos, gastava os assuntos. Por outro lado, o crocodilo começava já a passar fome. Por dois motivos: primeiro, porque havia naquele charco pouco peixe e outra bicharada que lhe conviesse para a refeição; segundo, porque só muito ao largo passava caça de categoria e tenra: cabritos, porquinhos, cães…

Continuar a ler