Arquivo da Categoria: Contos timorenses

O primeiro missionário entra em Timor

Há séculos, há muito tempo, os régulos de Timor, duma ponta a outra, juntaram-se no extremo da ilha para uma grande cerimónia sagrada.

No calor da dança, as gaitas de bambu e as tubas de chifre anunciaram a todos que no meio do mar, na extremidade da ilha, aparecera qualquer coisa parecida com uma armada; o que pusera a todos o coração em sobressalto.
Aqui, o régulo-chefe da extremidade da ilha cuidou e persuadiu-se de que aquela armada viria até ali para fazer guerra.
Mandou então dizer a todos os régulos que viessem sem falta, com seus guerreiros, suas espadas, armas, arcos e zagaias, para irem à praia esperar todos aqueles barcos.
Os nautas, vendo na praia a grande multidão de gente, compacta como as folhas duma árvore, fundearam os barcos ao largo, e apenas um se aproximou da praia. Continuar a ler

A lenda da abóbora

Antigamente, na escosta do Monte de Uru Bai, no reino de Venilale, na aldeia de Lia Bala, vivia um velho que gostava muito de cultivar a horta de abóboras. Naquele tempo, as abóboras davam frutos e eram só de tamanhos redondos. Ele preparava a sua horta durante um mês, no sopé daquele monte. Quando a chuva caía na terra, ele ia logo para a terra e levava consigo as sementes das abóboras para semear. Semeava durante uns dias. Depois de umas semanas, o velho ia outra vez para a sua horta e via as sementes nascerem e crescerem com muita abundância.
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Lenda do Céu e Terra ligados

Cozinha Timorense. Óleo de Sebastião Silva.

Houve uma altura em que ir da Terra ao Céu e voltar era a coisa mais fácil de fazer. Para isso, só era preciso subir a uma planta chamada «calêic» – um dos vários tipos de planta trepadeira existentes em Timor – que ligava um ao outro.
Havia uma mulher que tinha por hábito subir pela trepadeira para ir buscar lenha. Um dia, subiu como habitualmente fazia, mas demorou tanto tempo que o marido, zangado, cortou a planta trepadeira antes de ela descer. Desde essa altura, o céu e a terra ficaram separados para sempre.
O local exacto onde se encontrava a planta calêic continua um enigma.
A população de Ramelau acredita que esta planta trepadeira estava no topo da montanha chamada Darolau e que a raiz ainda lá está. Para a população da costa sul, esta planta trepadeira é originária de um lugar chamado Ria-tu, onde está uma pedra a marcar o local. As pessoas de Matebian, no entanto, têm a certeza absoluta que a planta trepadeira era de Quelicai, onde dizem que também ainda é possível ver a raiz da mesma. De acordo com as pessoas que vivem na costa este da ilha, era em Muapitini, distrito de Lautém que se podia subir ao céu.

A guerra que nunca acaba

Segundo a fábula, um ser divino mostrou-se visível à Rainha Loro-Sae e entregou-lhe a arma (azagaia). Esta arma é hoje considerada pelos descendentes como fortaleza de Timor-Lorosae.
O ser divino que entregou esta arma às gentes da tribo de Laga é natural da montanha de Matebian. O divino filho de Mau Watu era Salamau, o deus da aldeia Suruluto. Mau-Dawa-Buifli, a pessoa que extrai o vinho em Buigira, tinha uma filha que se chamava Limau, a Rainha Loro-sae. Os descendentes da tribo Laga, suco Nunira, estavam aptos a extrair o vinho da palmeira (sopi) e cozinhavam a aguardente (arak), segundo o processo tradicional. Porquê? Porque a especialidade dos antepassados era a produção de vinho extraído da palmeira. Vamos ouvir esta história!
Todas as tardes, o divino Salamau se transformava completamente em morcego e procurava o vinho de Mau-Dawa-Buini, pai de Limau. Ele bebia todo o vinho dele que estava em cima da palmeira. Um dia, quando veio ver o seu vinho, o pai de Limau reparou que aquele vinho tinha desaparecido. Então, ele decidiu vigiar, a ver quem tinha bebido o vinho. Por fim, numa tarde, quando ele veio velar a sua árvore, ele viu um morcego em cima daquela árvore, bebendo o vinho. Ele ficou pasmado!

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A Saída do Paraíso

«The Garden of Eden» de Thomas Cole(detalhe)

No princípio do mundo, nada crescia. Mas existiam pessoas, montanhas, árvores, animais, rios, mares, tudo. Frutos e sementes de todas as espécies. Nada nascia nem desaparecia. Não caía uma folha, não se abria um fruto, não nascia uma criança.
Nem as pessoas, vendo-se umas às outras, procuravam saber para o que existiam. Não pensavam e se elas não pensavam também não falavam.
Diz-se que o luchan apareceu pronto com todas as coisas que o mundo ainda hoje tem. O princípio das pessoas, dos animais, das plantas e das coisas apareceram prontas. No luchan também foi assim, apareceu cheiinho daquilo que precisa de existir: sunguês, sanguês, ôbô, lagaia, galinha, cão, porco, rio, fruteira, coco, ar e luz.

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A princesa de We-Hali

Jovens timorenses em trajes tradicionais.
Em tempos passados, já muito distantes, partiram para We-Hali alguns príncipes de Samoro, a fim de aí contratarem a princesa que deveria casar com o príncipe desta terra.
Quando chegaram a We-Hali, já ali encontraram gente de vários reinos, a solicitar também a real donzela.
Os de We-Hali, manhosos, enfeitaram muito bem mulheres de nobre estirpe e apresentaram-nas aos emissários, para que entre todas escolhessem aquela que mais prendesse os seus olhares.
Os de Samoro, antes que penetrassem no palácio real, em conversa amiga com as serviçais do régulo, tentaram saber qual, de entre elas, será a verdadeira princesa.
Estas responderam que nenhuma daquelas era a verdadeira princesa, mas sim uma outra que estava na cozinha, vestida de criada.
Assim, quando os de Samoro entraram no palácio para escolher sua rainha, não se decidiram por nenhuma das que os de We-Hali apresentaram aos seu olhares, mas indicaram aquela criada que estava a trabalhar na cozinha.

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Lenda da fonte sagrada de É-Bua

Vista de Ataúro

Mau-Bua e Rita foram um dia ter a Mau-Láku, onde aquele veio a falecer. Rita, sua mulher, mascou umas folhas e bagos de bétel e uma noz de areca e meteu-lhos na boca, sepultando-o em seguida. Passados sete dias, nasceram à cabeceira da sepultura de Mau-Bua um pé de bétel e uma arequeira, à qual apareceu agarrado um pequeno animal que falava. Um sacerdote ouviu-o e quis saber o que pretendia, revelando-se então o animal como a encarnação de Mau-Bua e acrescentando que aquele lugar passaria a chamar-se É-Bua (água + areca) e, desde esse momento, se deveriam usar bétel e areca em todos os ritos. Rita transformou-se em polvo e fez brotar uma fonte que tem o nome de É-Bua e de que ela é a divindade tutelar, sendo em sua honra que, todos os anos, se celebra o rito da chuva, que dura três dias.

* Esta fonte fica situada no suco de Makíli, na ilha de Ataúro.

in DUARTE, Jorge Barros – Timor, Mitos e Ritos Ataúros. Lisboa: ICALP, 1984

Beileira

Era uma vez um gigante muito grande, chamado Beileira. Um dia, ao passar por um campo, viu uma linda rapariga e logo se apaixonou por ela. Pediu-a em casamento e, como ele tinha bom coração, a rapariga aceitou.

Começaram a procurar casa para morar, mas não encontraram uma casa onde coubesse a cama do gigante Beileira.
– Não faz mal – disse a rapariga. – Podemos viver na floresta e dormir no chão. Juntamos umas folhas secas e fazemos aí a nossa cama.
Beileira estava de acordo. Ele preferia mil vezes dormir ao ar livre a ficar enfiado entre quatro paredes. Podia ouvir os animais quando eles iam para as tocas ou para a caça, o Sol acordá-lo-ia com suaves festas no rosto e os passarinhos cantar-lhes-iam lindas canções para que começassem o dia bem dispostos. Continuar a ler

A Cobra de Oiro do Rei de Lequeçan

Debaixo de cada pedra há um mistério; à sombra de cada árvore esfuma-se uma lenda. Mas nada é morto, pois tudo isso é alma, é vida, é segredo. Todo o timorense é espiritualista. E essa espiritualidade exprime-se principalmente pela maneira forte e amável como cada um cultua sua mãe. E ninguém será capaz de duvidar da palavra dela.

É que não está esquecido o que aconteceu aos dois irmãos do rei de Vèmassim e aos descendentes deles, condenados a tornarem-se na plebe mais plebe dos povos de Timor. Eles tinham-se esquecido de que só a mãe garante aos filhos o nome do pai. E o nome que ela disser é lei.

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A princesa das flores e lágrimas

Soubera um príncipe que num reino vizinho vivia uma princesa de tão surpreendente beleza que, ao falar, deitava flores pela boca e, ao chorar, lágrimas de ouro.
Desejando-a em casamento, foi o príncipe procurar o irmão da princesa e propôs a este, como em desafio, promovessem, segundo o uso tradicional, um combate entre dois galos, um do príncipe e o outro do irmão da princesa. Se o galo deste último vencesse o do primeiro, este perderia o reino; na hipótese contrária, o adversário dar-lhe-ia a irmã.
Quis a sorte que saísse vencedor o galo do apaixonado príncipe, que assim impôs a sua vontade. Marcado o encontro com a noiva na fronteira dos dois reinos, o príncipe logo partiu para arranjar luzidio cortejo.

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